ENSEMBLE ORGANUM
Marcel Pérès: direcção artística, voz
Jean Etienne Langianni, Ahmed Saher, Antoine Sicot, Frédéric Tavernier, Luc Terrieux: voz
Canto Bizantino, Romano Antigo e Samaa Marroquino
A Palavra cantada no Cristianismo e no Islamismo
Canto romano, bizantino, moçárabe, samaa marroquino
I
Apelo à Oração (canto moçárabe)
Per gloriam nominis tui Christe, filius dei vivi
Pela glória do teu Nome, Cristo, filho do Deus vivo
Apelo á oração muçulmana
Allaho akbar
Deus é grande
II
Alleluia: Beatus homo (canto moçárabe)
Feliz o homem que tu ensinaste
Kam laka mine ni'matine alaya
Devo-te, Senhor, todas as graças
III
In omnem terram exivit sonus eorum
As suas vozes ecoarão por toda a terra
Tahya bikom kolou ardine
Tu dás vida à Terra
IV
Hinos da 9ª ode de Pentecostes (Canto Bizantino)
Oh tu que na virgindade geraste o Filho de Deus
V
In splendoribus sanctorum (Canto antigo romano)
No esplendor dos santos, antes que brilhasse a estrela da manhã, eu te fiz nascer , do ventre de uma mulher
VI
Alleluia: De profundis clamavi ad te Domine (Canto moçárabe)
Ya mane ida kolto ya mawlaya labani
Desde as profundezas, Senhor eu te implorei
Oh, Senhor, Tu respondes às minhas invocações
VII
In memoria eterna erit Justus (Canto moçárabe)
Homo al jibalo.
O justo ficará para sempre na memória eterna
Como as montanhas a fé se levantará
VIII
Epístola do Domingo depois de Pentecostes (Canto Bizantino)
Os santos mártires combateram pela justiça com a oferenda do seu sangue
IX
Kyrie de Páscoa (Canto antigo romano)
X
Beatitudes do 1º modo (Canto bizantino)
Pela sua transgressão, Satanás expulsou Adão do Paraíso, pela Cruz, Cristo ofereceu-lhe o perdão
Alleluia : Videant pauperes (Canto moçárabe)
Tarakto baba arraja (Samaa marroquino)
Que os pobres vejam e sejam salvos
Eu bati à porta do perdão, e voltei-me para a esperança
Sinopse
Este concerto demonstra a unidade orgânica fundamental da arte da cantilação com origem nas três religiões monoteístas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão.
A leitura cantada dos textos sagrados é uma característica comum à prática de todas as religiões. Este património espiritual da humanidade é construído pelas diferentes técnicas de pontuar o espaço entre duas leituras. Este programa põe em relação quatro repertórios: o antigo canto romano e o canto moçárabe, o antigo canto bizantino e o samaa marroquino.
O samaa (palavra que em árabe significa escuta religosa) consiste num repertório ainda utilizado na maioria dos países muçulmanos, mas é em Marrocos que o canto originário melhor se tem conservado. Este repertório foi-se constituindo progressivamente durante os séculos XIV e XV, entre as irmandades místicas que se reuniam para cantar textos poéticos, para exaltar os seus sentimentos de piedade e alimentar a reflexão religiosa. Al Andaluz parece ter sido o lugar donde este repertório imenso desenvolveu o essencial dos seus textos e sobretudo a sua música.
O canto moçárabe é o antigo canto dos cristãos de Espanha, durante a administração muçulmana. Existem vários repertórios moçárabes. A liturgia moçárabe estabilizou-se durante o VI e VII séculos, mas as suas origens eram bem mais antigas. Era a expressão duma cultura religiosa desenvolvida na África do norte a partir do II século, cuja esfera de influência se estendia até ao sul da Gália com o bispado de Arles, representante duma certa autoridade teológica. Do ponto de vista musical, o canto moçárabe do século XV é muito parecido com o samaa marroquino.
O canto bizantino é um repertório ainda bem vivo na igreja ortodoxa, e tem sido sempre uma fonte de criação ao longo dos séculos. Mas, em alguns destes cantos, ainda são utilizados elementos muitos antigos, dos primeiros tempos do cristianismo. O antigo canto romano, cuja origem remonta à antiguidade tardia, era o canto das grandes basílicas romanas até ao século XIII. Em 1999 tivemos ocasião de fazer reviver o canto moçárabe do século XV com cantores marroquinos educados na tradição do samaa. Durante o nosso primeiro encontro, em 1998, em Casablanca, comecei por cantar para eles uns extractos de cantos moçárabes e instantaneamente, eles responderam-me cantando peças do seu repertório. Criou-se espontaneamente um diálogo musical. Falávamos todos da mesma coisa com o mesmo sotaque, as mesmas entoações e entendíamo-nos recíprocamente. Tínhamos vivido esta experiência muitos anos antes, em 1985, com Lycourgos Angelopoulos, director do coro bizantino da Grécia, quando estudámos as origens comuns do canto bizantino e do antigo canto romano. O concerto desta noite testemunha estas diferentes experiências.
Dentro dos cantos moçárabes, romanos e gregos escolhemos peças que apresentam analogias musicais com o repertório do samaa, e textos que ecoam a poesia sufi. A alternância constrói um percurso parecido com o praticado nas cerimónias das irmandades muçulmanas. Uma alternância de cantos de grupo, que apresentam uma pulsação vigorosa, e recitativos durante os quais, de maneira espontânea, diferentes cantores respondem uns aos outros, deixando emergir de memória a frase ou a estrofe dum poema que pouco a pouco vai construir um itinerário espiritual que o mestre de cerimónia, com intervenções apropriadas, dirige para onde lhe parecer ser necessário.
Este concerto está concebido como uma vigília de oração, onde os homens se encontram, partilham e vivem a mesma experiência no acto de cantar. Mesmo que a língua e os mediadores sejam diferentes, por intermédio da música surge de novo o eco da unidade cultural original, que foi o fermento das civilizações cristãs e muçulmanas, na continuidade do culto cantado do templo de Jerusalém.
Cada religião, e no seu interior, cada corrente, insere-se dentro do tempo que lhe é próprio. A primeira condição para o diálogo e o encontro consiste em se abrir ao tempo do outro. Não existe nenhum vector melhor que o canto para realizar esta função, abrindo assim o caminho à compreensão dos códigos genéticos do espiritual.
Marcel Pérès |