JORDI SAVALL, ANDREW LAWRENCE-KING E FRANK MCGUIRE
Jordi Savall: treble viola de Nicolas Chappuy (Paris 1750) / viola-lira (viola baixo) de Barak Norman (London 1697)
Andrew Lawrence–King: harpa Irlandesa e saltério
Frank McGuire: bodhran
A Viola Céltica-Tradição e Inovação
Colecção da Caledonia
Archibald MacDonald of Keppoch: tradicional da Irlanda
The Musical Priest / Scotch Mary: tradicional da Irlanda
Caledonia's Wail for Niel Gow: Captain Simon Fraser (1816 Colectânea)
Sackow's: tradicional da Irlanda
(viola e harpa Irlandesa)
Colecção de Lord Moira
Abergeldie Castle Strathspey: Dan R. MacDonald (1911-1976)
Regents Rant: tradicional da Escócia
Crabs in the skillet (giga lenta): colectânea Mammoth de Ryan (Boston 1883)
Lord Moira's Hornpipe Ryan's: Mammoth colectânea (Boston 1883)
(viola-lira solo)
Harpa de Carolan
Try if it is in tune: Feeghan Geleash Anonimo da Irlanda (Bunting MS)
Carolan's Dream: Molly McAlpin Turlough O'Carolan (1670-1738)
The Reel of Tullochgorum: tradicional da Escócia (harpa Irlandesa a solo)
Colectânea do Lamento
The Tuttle's Reel (viola e harpa Irlandesa) tradicional da Irlanda
Macpherson's Lament (viola solo): James Macpherson (ca. 1675-1700)
The Hills of Lorne (viola e harpa Irlandesa): Charlie Hunter of Oban
Lament for the Death of his Second Wife: Niel Gow (1727 – 1807)
The Gander in the pratie hole: tradicional da Irlanda
Colectânea dos Foles de Lancashire
A Pointe or Preludium - The Lancashire pipes
The Pigges of Rumsey - Kate of Bardie
The cup of tea: tradicional da Irlanda
A toy: Manchester Gamba Book
(viola-lira solo)
As gigas Favoritas de Carolan
Squire Woods' Lamentation on the refusal of his half-pence :Turlough O'Carolan
Abigail Judge & Planxty Judge: O'Carolan (Edward Bunting Ancient Music of Ireland, 1809)
Colonel Irving: O'Carolan (Edward Bunting ancient music of Ireland, 1809)
(harpa Irlandesa solo/ Irish harp solo)
A Colectânea de Donegal
The Rover Reformed: John Playford (1718)
Lady Mary Hay's Scots Measure: tradicional Escócia
Carolan's Farewell Turlough: O’ Carolan
Gusty's Frolics: tradicional
(viola e harpa Irlandesa)
Sinopse
Toda a música transmitida e preservada pela tradição oral é o resultado de uma sobrevivência feliz a seguir a um longo processo de selecção e síntese. Os processos de transmissão são também caminhos de evolução, inovação e, por isso caminhos de transformação pelos quais sofrem influências de estilos musicais alheios, modernos ou até de origens remotas, resultando em formas de interpretação novas e igualmente legítimas.
O repertório celta é preservado actualmente através de estilos ou modos de execução muito diferentes; por um lado, há um corpo de músicos que, desde os anos 1970, foram inspirados por um estilo “tradicional novo”, desenvolvido por grupos pioneiros como The Chieftains e Ceoltóirí Chualann. Por outro lado, há os músicos que, a partir dos anos 1980, têm transformado estas tradições em “formas modernas, sincréticas e vendáveis”. Estes grupos demonstram novos caminhos pelos quais a música celta está a ser refeita e sincretizada no palco de concerto. Há quem sinta que estes desenvolvimentos revelam a adaptabilidade da tradição, enquanto outros vêm iniciativas comercializantes e marginais.
Embora estas maneiras de recuperar e actualizar a memória musical tradicional sejam possíveis e legítimas, isto não quer dizer que sejam melhores que as versões mais tradicionais. O vasto repertório de música celta tem origens diversas no tempo e no espaço, cada uma fornecendo informações fascinantes sobre o seu carácter, técnica, ornamentação, estilo e execução. Dão-nos a chave para versões que respeitam o contexto histórico bem como as novas tendências executivas.
Em 1970, após ter descoberto o manuscrito conhecido como o Manchester Gamba Book, contendo uma grande colecção de obras para viola da gamba, com 22 afinações ou scordature diferentes, descobrindo subsequentemente outras fontes manuscritas em Londres e Dublin com obras de William Lawes e John Jenkins, bem como colecções impressas como as Lessons for the Lyra-Viol publicadas por Tobias Hume, Thomas Ford, Alfonso Ferrabosco, William Corkine e John Playford entre 1605 e 1670, tomei conhecimento das várias afinações muito características da viola da gamba nas culturas inglesa, escocesa e irlandesa do século XVII, quando o instrumento gozava ainda de uma grande popularidade. Descobri quão criativos eram os músicos desta época, e também quão interessados em tradições populares. Na verdade, entre as 22 afinações diferentes, encontramos aquelas referidas como “afinação de gaita de foles”, ou a “afinação da gaita de Lancashire”. O objectivo era imitar as gaitas escocesas e irlandesas, pensando na música popular do século XVII, que estava muito próxima da música celta tradicional preservada incialmente na tradição oral e posteriormente na notada dos séculos XVIII e XIX em várias colecções.
A interpretação desta música para a viola-lira (lyra-viol, ou lyra-way), encorajou-me a aumentar o meu campo de estudos para incluir música dos repertórios escocês e irlandês, que tocava inicialmente na minha viola baixo afinada como uma lyra, ou usando a afinação de gaita de foles. Impressionaram-me as muitas semelhanças ao estilo barroco: o uso de inégales, e um sistema de arcadas muito individual, bem como uma grande profusão de ornamentação improvisada. Em The Celtic Viol II escolhi combinar a viola soprano de Nicolas Chappuy de1750 e a viola baixo de Pellegrino Zanetti de 1553 com o seu som poderoso e caloroso. Aqui também temos as harpas irlandesas e o saltério tocadas por Andrew Lawrence-King e, mais uma vez, acompanhamentos improvisados ao estilo da época: adicionámos percussão nas peças rítmicas ou da dança, com Frank McGuire a tocar o bodhrán. Escolhemos peças agrupadas em suites ou conjuntos segundo a tonalidade.
Oferecemos assim tributo à arte da transmissão e ao talento de todos os músicos que criaram esta herança maravilhosa. Como sugere Ciaran Carson, as velhas melodias e canções unem o passado e o presente cada vez que são tocadas: “Cada vez que se canta a canção, as nossas ideias sobre ela mudam, e nós mudamos através dela. A música e as palavras são velhas. Foram aperfeiçoadas por muitos ouvidos e bocas e muito contempladas. Mas de cada vez é nova porque o momento é novo, e não há nenhum momento como agora.” (Carson, 1996.)
Jordi Savall, Abadia de Fontfroide (França), 29 de Julho de 2010 |